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abril 9, 2008
Escrever
A gente fica muito tempo sem escrever e dá nisso: uma vida inteira passa diante dos seus olhos e você nem está à beira da morte. No caso de alguns pode ser uma pena...
Você já viveu a experiência de sentir que quase perdeu alguém importante? Estou vivendo essa experiência de quase perda. Quando morei longe de Manaus, perdi a experiência de ver meus sobrinhos crescer, de ver momentos importantes no envelhecimento de minha mãe (sim, porque envelhecer é tão importante quanto viver bem a juventude), perdi oportunidades de ganhar mais dinheiro e ter casa própria, essas bobagens que não contam. Mas não sabia que a gente podia perder o contato com um irmão ou uma irmã. O fato de não reconhecermos alguém com quem crescemos é cortante, para dizer o mínimo.Eu poderia escrever masi sobre isso, mas é melhor não.
Tenho lido muitos livros e falado com pessoas, parafraseando a canção de que não gosto. Tenho feito outras tantas coisas que não cabem dizer aqui. Mas fiz uma coisinha, já há algum tempo que foi bem legal. Lembram desse texto de Clarice Lispector?
Quando não estou escrevendo, eu simplesmente não sei como se escreve. E se não soasse infantil e falsa a pergunta das mais sinceras, eu escolheria um amigo escritor e lhe perguntaria: como é que se escreve?
Por que, realmente, como se escreve? Que é que se diz? E como dizer? E como é que se começa? E que é que se faz com o papel em branco nos defrontando tranqüilo?
Sei que a resposta, por mais que intrigue, é a única: escrevendo. Sou a pessoa que mais se surpreende de escrever. E ainda não me habituei a que me chamem de escritora. Porque, fora das horas em que escrevo, não sei absolutamente escrever. Será que escrever não é um ofício? Não há aprendizagem então? O que é? S ó me considerarei escritora no dia em que eu disser: sei como se escreve.
Pois é. Enviei esse texto para várias pessoas, algumas (na verdade pouquíssimas) responderam. Algumas das respostas estão logo abaixo:
I
A pergunta de Clarice é claro que é retórica (mas não é por hipocrisia). Ela sabe como se escreve, mas quer lançar este desafio aos outros escritores e pretendentes de escritores , como nós. Ela quer mostrar pra nós que o escritor TEM QUE SER HUMILDE e deve manifestar essa humildade. Escrever provoca as mais diversas sensações nos poetas. Gosto muitíssimo da pergunta de Hilke ao jovem poeta: ESCREVER PRA TI É VITAL?
Vc vive sem isso? Eis a questão. Nós dois sabemos que somos poetas porque não sabemos viver sem FAZER POESIA , somos obrigados a aceitar nosso destino, com humildade e grandeza.
Quanto a mim, a minha história pessoal, agora ela está mais do que nunca vinculada à essa atividade vital de escrever. Não posso ter a regularidade de muitos escritores , dado o meu problema de coluna, mas escrevo com toda a força que existe dentro de mim. (Luciana Martins)
II
Eita... Pergunta difícil, hein? :) Mesmo não sendo escritora, respondo sim!
Bem, eu acho que tenho 2 jeitos de escrever: no papel (ou na tela) e na minha cabeça. Eu escrevo muita coisa na cabeça que nunca vai pro papel. Algumas coisas vão, mas sinto que quando as mãos entram no circuito elas têm vida própria e a escrita é alterada pelo elemento "mãos". Como se fossem elas que escrevessem, ou melhor: a cabeça dita e elas escrevem, mas não sem influência. Como um telefone sem fio :)
É bem clara a diferença pra mim do pensar simplesmente e do escrever. Há idéias e coisas que aparecem mentalmente que já vêm prontas pra compartilhar, e acho que é essa a diferença: tudo o que eu preciso dividir ou dialogar, é o que se escreve (e nem sempre vai pro papel, às vezes fica só escrito no pensamento); o que é só meu fica em outro compartimento.
Várias vezes por dia eu separo mentalmente as "coisas de escrever" e "pensamentos outros"!
Então, meu querido, sou bem diferente da Clarice... eu escrevo o tempo todo na minha cabecinha. Às vezes vai pro papel/tela, às vezes não :)
Beijo, te amo querido!
(Zel)
III
Gabi, meu lindo, como ir além da própria Clarice? Imagine se eu conseguiria... A pulsão pelo escrever talvez seja
um dos maiores mistérios da natureza humana... E, por ser misterioso, é ainda mais maravilhoso
(Cris Ramalho)
Respostas! Respostas!
por Gabis às 11:44 PM | comentários (1)