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dezembro 19, 2007
A arte do silêncio
Eu vinha sentindo, faz algum tempo, a necessidade de voltar ao Páginas Íntimas para contar uma série de histórias recentemente acontecidas em Manaus e comigo, mas não o fiz. Havia uma outra série de coisas que me impedia: as viagens de trabalho, a angústia diante do dia a dia, a necessidade de resolver o cotidiano antes de me preocupar com a escrita, a dúvida diante da necessidade de vir aqui e me expor e, finalmente, a necessidade de ficar em silêncio.
Em que pese o fato de que o título desse post apresente o silêncio como uma arte, não quero dizer que eu seja um artista do silêncio ou que o meu silêncio seja uma forma de superioridade. Quero dizer que há momentos em que precisamos reconhecer (pelo menos algumas pessoas entre as milhões do mundo) que é preciso ficar em silêncio para ver o que acontece com a gente. Foi o Gui, por ora em silêncio, que voltou a me chamar a atenção para essa questão da qual já tratei aqui.
O silêncio vem de várias formas. O que dizer para alguém que perdeu um filho, um amor, um amigo? Que dizer para alguém que se descobriu nas mãos da indesejada das gentes? Que dizer para alguém que sofre pelo imponderável, pelo irreparável? Entre as obviedades e os lugares comuns, prefiro o silêncio e a mão amiga.
Certa vez um homem me disse que o silêncio é uma forma de resposta e isto me assombrou tremendamente. Mas sei que há casos em que o silêncio não é só resposta, é uma espécie de grito. Já perceberam como existem silêncios que acalmam e outros que berram? Há silêncios insuportáveis como o de antes da resposta sobre uma promoção no trabalho, o de antes que alguém diga “você quer ficar comigo?”, o que antecede o instante em que você percebe o fim. Fim de quê? De tudo quanto você ame, mas não necessariamente ao mesmo tempo.
Há o silêncio que consola. O silêncio de amigos que não precisam dizer nada porque a presença basta. O silêncio das manhãs de domingo quando ninguém ainda acordou. O silêncio dos gatos deitados ao seu lado, “o silêncio das línguas cansadas”.
Lembro que quando assistimos “O labirinto do fauno” e “Piaf”, saímos do cinema em silêncio. Não havia aquele nervosismo de após assistir “Tropa de elite” ou “Qualquer coisa Bourne”, e olha que gostei dos “qualquer coisa Bourne”.
Há silêncio na música também. Em qualquer música. No mais ininterrupto exemplar de heavy metal há silêncio, há um espaço para as notas respirarem. A música de Satie sabe fazer silêncio e a de Bach também. E, é claro, há uma grande tradição de músicos populares que falam sobre o silêncio e sabem fazer silêncio:
Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco a dor no peito
Não diga nada sobre meus defeitos
E não me lembro mais quem me deixou assim
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor assim descontraído
Quem sabe de tudo não me fale
Quem não sabe de nada se cale
Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
(Paulinho da Viola)
Por ora, basta.
Amor sempre.
por Gabis às dezembro 19, 2007 8:22 AM
Comentários
querido, como os silêncios são importantes. descobri há poucos anos :)
que o 2008 de vocês seja maravilhoso e cheio de coisas boas. e que eu possa visitá-los, quem sabe?
beijão!
por zel em janeiro 1, 2008 4:10 PM