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agosto 1, 2007
NADA E A NOSSA CONDIÇÃO - O POST
I
Tive a sorte (ou estava surtado, não sei) de trabalhar Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa, com meus alunos do primeiro período de Letras. Papo vai, texto vem, eles leram junto comigo os contos inicial e final. Lemos página à página, fazendo paradas, fazendo perguntas, imaginando intenções. E houve um momento, durante a leitura de “As margens da alegria” que encontramos a declaração “Só no grão nulo de um minuto, o Menino recebia em si um miligrama de morte”. Essa belíssima construção é sobejamente conhecida, eu sei. Mas ela me pegou em algum lugar e fiquei desconfiado. Meus alunos também ficaram e só se acalmaram quando passamos do conceito de sacrifício para o de reversibilidade. Explico: existe, acredito, um princípio de reversibilidade na obra de GR. Há sacrifício, morte, perdas inomináveis, mas, em certo momento, toda dor se reverte em beleza, em uma forma de alegria. A idéia não é minha, é de Alfredo Bosi no livro Céu, inferno.
II
Chegou o fim de semana. Entre cuidar dos gatos, da casa, dos livros, do companheiro, da família e ter minhas coisas em segredo (isso é importantíssimo!), fiquei tomando minha xícara de café com leite e olhando o sol da manhã, lindo, depois de uma noite de chuva. Lembrei de haver comprado um disco de Elis Regina, Transversal do tempo, e resolvi ouvi-lo, eu, que quase nunca ouço Elis. Fui ouvindo, ouvindo e encontrei uma canção, muito famosa nos fins dos anos 70, chamada “Meio termo”, conhecem? A letra é de Cacaso e a música de Lourenço Baeta:
Ah, como eu tenho me enganado
Como tenho me matado
Por ter demais confiado
Nas evidências do amor
Como tenho andado certo
Como tenho andado errado
Por seu caminho inseguro
Por meu caminho deserto
Como tenho me encontrado
Como tenho descoberto
A sombra leve da morte
Passando sempre por perto
E o sentimento mais breve
Rola no ar e descreve
A eterna cicatriz
Mais uma vez
Mais de uma vez
Quase que fui feliz
A barra do amor
É que ele é meio ermo
A barra da morte
É que ela não tem meio-termo
Vejam só que ironia: Transversal do tempo é de 1978, portanto “Meio termo”, foi gravada no mesmo ano. Elis partiu em 1982 e Cacaso, em 1987. Continuei ouvindo o disco, ora o pensamento ia para Guimarães Rosa, ora para Elis e Cacaso. Eu estava feliz, juro. Estava bem demais. Havia sol, havia a poesia, havia a música, havia luz, era sábado, a vida existia para mim e para os outros. Foi aí que o telefone tocou. Rider, meu amigo desde o finzinho da adolescência, grande bailarino e coreógrafo, disse com voz pausada “gabriel-me-deixa-falar-a-berna-morreu-hoje-às-cinco-da-manhã”. Eu sabia que ela ia morrer, todos sabíamos, mas de algum modo a notícia era brutal. Tomei banho, me arrumei para vê-la pela última vez. Fiquei parado diante do caixão e vi que já não era a minha amiga, a artista plástica brilhante, uma das mais prolíficas da geração a que pertencia. Olhei fundamente o rosto encovado e branco e a única coisa que me vinha à cabeça era que aquele saco de ossos já não era ela, já não era Bernadete Mafra de Andrade. O Loro, ao meu lado, depois de um tempo disse “não dou conta de ficar mais aqui, não”. Entendi perfeitamente. Não consegui chorar direito até agora. Quando saímos do velório, olhei para o Loro e perguntei o que fazemos disso. Onde pomos a perda? Onde pomos a responsabilidade pela nossa ausência? Se alguém souber, que me diga.
III
Berna, venho assumir publicamente que sumi de você. Por covardia, por canalhice talvez. Venho dizer publicamente que agradeço a graça de te haver conhecido, agradeço termos lido o Eupalinos (belíssimo livro), agradeço o que você me deixou e não sei nomear. Agradeço e desejo poder dar a outros a alegria que recebi de ti.
por Gabis às 11:29 PM | comentários (108)