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julho 24, 2007

O país experimental

Tento não ser "pessoal demais" quando escrevo aqui (estradas retas me cansam). Mas há momentos em que se deve dar nomes aos bois. Estou espantado com a quantidade de tranqueira pelas quais a gente tem passado.

1) Li, na Zel sobre as vaias contra a atleta estadunidense e pensei na atitude latina (em seu sentido stricto) de jogar o cristão aos leões. Vaiar é feio, é mal-educado, é expressão do sentimento de inferioridade que os outros nos causam por uma série de motivos. Não acompanho esportes porque tenho outros interesses, mas no quesito sentimento de inferioridade, o Brasil amarga algumas passagens quanto aos estadunidenses: basquete, vôlei, ginástica... Agora, o comentário da moça é de matar: passar por portuguesa dada a vergonha de ser brasileira... Faça-me o favor.

2) Ontem, uma amiga chegou em Manaus e fez um relato breve sobre os efeitos do apagão do sindacta 4. A aeronave em que ela vinha teve que retornar a Guarulhos! A Gol não garantiu o embarque de todos os passageiros e não se desculpou ou externou qualquer preocupação: a responsabilidade, segundo a companhia, é da INFRAERO, que diz não ser responsável por coisa alguma. E até quando a blindagem presidencial vai funcionar? Senti-me menos ofendido quando li isso aqui.

3) E o sindacta 4? A responsabilidade é da Manaus Energia? A responsabilidade é da Infraero? A resposnabilidade é da gerência? Se não entendeu, veja "O Iluminado". De quem é, afinal?

4) após o acidente da companhia Rico, no qual faleceu meu amigo e irmão Marcelo Guedes, após o acidente com o vôo da Gol, no qual perdemos alguns dos mais brilhantes pesquisadores que nos prestavam assessoria na FAPEAM compreendi uma coisa: caixas pretas não revelam absolutamente nada. Se revelassem, saberíamos o que aconteceu nos acidentes anteriores, teríamos uma resposta consistente que não existe para nenhum dos casos citados. E acreditem: não teremos uma resposta consistente e cabal para o que aconteceu em Congonhas.

5) Enquanto isso, na Inglaterra, chove a cântaros, na Itália há um incêndio de proporções inimagináveis e é bom não esquecer da África.

Com licença, vou ali chorar um pouco (de raiva e frustração) e outra hora, volto.

por Gabis às 10:57 AM | comentários (105)

julho 9, 2007

Elizabeth Coetzee

Mesmo quando estamos fora do mundinho, os ecos chegam onde quer que estejamos. A mídia fez e faz todo aquele escarcéu por causa da FLIP. Eu não vou à FLIP porque moro longe, porque é caro, porque não estou à vontade com o conceito de festa literária e porque gosto de escritores, eu os admiro, mas não os cultuo.
Como dizia, o eco do mundinho vem até nós em forma de uma pergunta: “parece que J. M. Coetzee vai à Flip, você já leu algum livro dele, não é?”. Quando me fazem perguntas assim, aparece, em primeiro lugar, aquele cara chato formado em letras se perguntando: qual a relação entre a oração principal e a subordinada? O fato de Coetzee vir para a FLIP é conclusivo de eu o haver lido? Pois é, não li. Mas não resisti e comprei o único romance dele que encontrei em Manaus, “Elizabeth Costello”.
Sei sobre o autor que é viajado, lido, culto, refinado, um tanto mal humorado e ganhador do Nobel de 2003. Sei também que a crítica especializada rende loas ao cidadão como se, acabado o mundo, só a obra de Coetzee devesse existir. Que fazer senão ler “Elizabeth Costello”? Iniciei a leitura e, na orelha, diz-se que Elizabeth Costello é um duplo de Coetzee e, como ele, uma escritora de idade avançada, gozando o prestígio colido ao longo dos anos de vida literária. Alguns temas vêm à tona no calor da hora: o desrespeito à vida animal (incluído aí o fato de serem devorados por nós), o extermínio de seres humanos nos campos de concentração nazistas, o conceito de mal... E tudo isso em forma de palestras proferidas pela autora ao mesmo tempo em que vai enfrentando problemas familiares e afetivos (será que se separam?). Até aí tudo bem, Coetzee está na ordem do dia e, por meio das declarações de suas personagens, faz verdadeiros confrontos de idéias como há tempos não os lia. Até que, numa curva inesperada, o leitor é posto a observar Elizabeth, aos quarenta anos, desnudando e oferecendo os seios para um velhinho à beira da morte. Para arrematar, ela brinda o moribundo com uma felação, aliás é bom lembrar que, no texto, as partes do velho são ditas como “mal lavadas”. Ainda tudo bem. Mas meu olhar que ainda se espanta com o que lê, ficou mirando aquela situação, explicada a partir de uma menção ao mundo grego, à arte grega em conflito com o espírito cristão, aos seios e sua capacidade de “exsudar” manifestação do belo e do pacto entre homens e mulheres. Fiquei incomodado, mas não como quando uma declaração, imagem ou idéia nos faz parar para pensá-la, vê-la e, por fim, compreendê-la. Foi o incômodo diante de alguma coisa ainda não completamente demonstrada, alguma coisa que quer nos enganar. Estou me sentindo enganado por Coetzee. Há engano quando um autor inventa um duplo feminino que, ainda jovem, põe-se a sugar o pênis morto de um octogenário, acreditando, tempos depois, que esse ato em si e pelo suor, é um ato humano de beleza. Sugere-se ainda que a felação e a oferta dos seios sejam parte de um pacto entre o feminino e o masculino. Sim, é provável que seja. Mas um homem não poderia fazê-lo igualmente? Mais: não seria o homem à beira da morte um outro duplo, melhor, uma sombra, esta, sim, portadora de uma atitude masculina? Ou seja, um homem querendo ser chupado, fantasiando a felação in extremis? Parece-me que o cultuado Coetzee é mais um macho bem pensante escrevendo. Nada contra os machos, eles são os inventores da escrita, mas a passagem acima descrita não seria mero exercício de estilo disfarçando uma masculinidade que de resto não carece de disfarces?
Gostaria de ver como ele resolveria a imagem de um homem chupando outro. Aí, talvez, ele chegasse aos gregos e ao suor.

por Gabis às 8:19 PM | comentários (63)