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junho 18, 2007

Crônicas de um lugar comum: o fotógrafo, o porteiro e o cinegrafista

CASO 1
Um homem de bem vivia de tirar fotos para documentos, fotos de casamentos, batizados e que tais. Encontrou uma senhora de bem com duas filhas, a mais velha com dez e a mais nova com cinco anos. A mãe precisava de um dinheirinho e, por bagatelas, fazia vistas grossas para algumas visitas que o fotógrafo fazia às meninas. Um vizinho descobriu, chamou os demais vizinhos e invadiu a casa do fotógrafo, onde acharam-se fotos e vídeos das "brincadeiras" entre ele e as crianças. Quando o cenário estava pronto para o linchamento, a polícia chegou e acabou com a festa. O fotógrafo foi preso, a mãe está presa, os vizinhos se calaram e, das meninas, ninguém sabe.

CASO 2
Dona Fulana era a filha mais velha de uma família respeitável e pobre. Dedicou a vida a fazer carreira na secretaria de fazenda, ganhou dinheiro, cuidou dos sobrinhos, pagou-lhes a faculdade, ganhou mais dinheiro e resolveu fazer o bem, porque quem dá aos pobres empresta a Deus. Séria, severa, viu-se aos 70 anos sem filhos, com dinheiro, sem amor e alguns poucos amigos. O porteiro do prédio elegante em que d. fulana morava demonstrou atenção para com ela, passou a frequentar a casa dela, passou, com nojo (conforme os depoimentos) a dormir com ela. Pediu-lhe um carro, ela deu, pediu-lhe dinheiro, ela deu. Um dia o telefone tocou: "dona fulana, deixe esse rapaz, ele é perigoso, eu sou a namorada dele e sei o que digo". Ela desligou pensando o quanto as pessoas são invejosas. Foi encontrada morta, dentro de um carro, com o rosto deformado pela sequência de tiros com os quais foi alvejada. O porteiro está preso em uma carceragem para bandidos de alta periculosidade.

CASO 3
Um cinegrafista saiu com a ex-mulher, a irmã da ex, a filha de um ano e meio e a babá da criança para dar um passeio e jamais voltaram para casa. Os pais da ex começaram a receber telefonemas de seqüestradores. Os bandidos queriam R$ 300,00. Os corpos das três mulheres e da criança foram encontrados no quintal de uma vila de casas da periferia. Sabe-se que uma das vítimas, a ex, articulou com o assasino um sequestro fake para extorquir dinheiro do próprio pai. As coisas deram errado quando a babá descobriu e ameaçou ir à polícia. Suspeita-se que o assassino seja o cinegrafista e que a mãe das vítimas seja uma das
cúmplices do golpe frustrado.

E tudo isso aqui em Manaus.
Para entender, é melhor ler "A violência e o Sagrado", de René Girard.

por Gabis às 9:20 PM | comentários (66)

junho 16, 2007

A vida como ela é

Uma das coisas mais assustadoras de viver é o inesperado. Acho que tem gente que vê o mundo com óculos de sol, sabe? Gente assim não vive nem aceita o inesperado, o caos, as coisas que imaginávamos arrumadinhas no lugar delas e que, súbito, pegam a gente na curva.
CASO 1:
O LÔRO: Gá, sabia que sua irmã tá viajando?
EU: Humrrum, a mãe já me contou que ela faria uma viagenzinha de trabalho.
O LÔRO:Pois é, ela vai ficar um tempo em Paris.
EU: (...)
O LÔRO: Gá?
EU: sabe que eu tinha esquecido?
Tudo mentira, eu fiquei foi com inveja. Imagina um cara como eu, preparado para ir a Paris desde a mais tenra idade, falava francês bonitinho e tals e é minha irmã do meio que vai? Aí, depois da inveja, veio um orgulho, um amor tão grande.

CASO 2 (ao telefone):
PAT: Amigo, a vida tá uma loucura: meu pai está doente, seriamente doente.
EU:Que péssimo, Pá. E você?
PAT: Tentando ficar mais calma... eu acho que não tô muito legal também.
EU: Enxaqueca é de lascar, né?
PAT: É, sim. Mas a possibilidade de ter desenvolvido um câncer é pior.
EU (de novo): (...)
PAT: Gabriel?
EU: Tô aqui. Tô espantado contigo: podem passar com um trator por cima que tu estás rindo.
PAT: Nem tanto. Tô apreensiva. Não tenho medo da morte, de desaparecer da vida. Tenho preocupação com os meus filhos, quem vai cuidar deles?
EU: Ok, mas pára de falar como se fosse morrer, como se já tivesse câncer.
PAT: Só falta a resposta dos exames.
EU: Escuta, não me parece, pelo teu jeito, que seja alguma coisa pesada. Você sente dor?
PAT: Não, mas o médico disse que era melhor que eu sentisse...

CASO 3
LUÍZA (3 anos): Tio Biel, eu tenho uma coisa pra te dar.
EU: É amor? Que é?
LUÍZA (3 anos): Isso aqui, ó.
O beijo durou um tempão, fiquei com o rosto lambuzado de um batom rosa que ela resolveu usar.

Os gregos acreditavam na Moira, o destino inelutável dos homens. Eu acredito no imprevisível. E ele tanto é doce quanto assustador.

por Gabis às 12:06 PM | comentários (131)