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outubro 9, 2006
Como um rio
Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.
E de levar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva
e lava.
Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.
Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.
Como um rio, aceitar
essas subitas ondas
feitas de águas impuras
que afloram a escondida
verdade das funduras.
Como um rio, que nasce
de outros, sabe seguir
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.
Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.
(Thiago de Mello)
por Gabis às 11:20 PM | comentários (1070)
Estagnação
I
Seguinte: lembra de um filme com o John Wayne no qual ele quer recuperar a sobrinha raptada pelos índios Comanche? Pois é, nesse filme existe um personagem interessante. O cara é um destruidor de ossos, ou seja, ele é bom de porrada, sabe? Acontece que ele não quer mais dar porrada e simplesmente joga a toalha com uma frase do tipo "a partir de hoje as lutas acabaram". Porém as lutas não acabam. Em um determinado momento, impulsionado por forças obscuras, ele volta à pancadaria. Que pode fazer? Ele é bom nisso. Descontadas as diferenças (eu não sou bom de porrada nem de enfrentamentos) é assim que me sinto. Queria abolir algumas coisas da minha vida imediatamente. Palavras como processualidade, procedimentos, coordenação, ofícios e encaminhamentos deveriam ser abolidas (talvez todas elas caibam na palavra burocracia). Acontece que eu não posso abandonar o ring, a luta está só começando. Agora, me diz, onde ponho o meu cansaço?
II
No I CHING: "homens maus não favorecem a perseverança do homem superior. O grande parte, o pequeno se aproxima".
III
No Livro de Jó: "Foi bom ter sofrido".
IV
Na vida: nada é exatamente o que parece.
por Gabis às 10:53 PM | comentários (161)
outubro 2, 2006
Demora, mas vem.
I
Acabei de ler "Nove Noites", romance de Bernardo Carvalho. Fiquei impressionado: o cara é refinado, conhece a estrutura narrativa. Deve ser um observador e tanto dos seres humanos... e ainda consegue deixar espaços na narrativa pra gente completar, errar, acertar. Há poesia no livro e o Brasil está maravilhosamente captado em um grande plano que vai do Xingu ao Rio de janeiro. Obrigado, Bernardo. Você me deu muito e nem sabe disso.
II
E, não resisitindo, digo que o último livro de Tahar Ben Jelloun, "O último amigo", é previsível, simples, linear e maravilhoso porque não é a surpresa que conta naquela obra, mas a capacidade de relatar experiências fundas. Não tem espaço para frioleiras: tudo é quente, frio, intenso e sem meio termo. Ainda estou impactado.
III
Alguém aí detestou "A dama da água" tanto quanto eu?
IV
Estou doído, magoado, irascível. Uma tsunami de merda passou por aqui e me esculhambou todo. Todo dia acordo e penso "será que demora a passar?".
V
Estou tentando fazer um poema há meses e ele não vem. Luciana disse para eu deixá-lo meio escrito dentro de uma gaveta, bem escondidinho que hora dessas ele nasce. Vou esperar.
VI
Já sentiu um incômodo em pleno peito, uma angústia inexplicável e ficou pensando: "comi uma coisa que me fez mal ou, de fato, vem chumbo grosso por aí?". E, claro, desacostumado a acreditar nas intuições, você opta pela má digestão. A vida gargalha alto da sua ingenuidade e pergunta: "por que não me ouviste?". Queria ser menos polido e mostrar o dedo pra vida que ri a minhas custas.
VII
A arte não salva, mas ajuda.
por Gabis às 10:06 PM | comentários (3)