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julho 5, 2006
OS DIAS FELIZES E OS OUTROS DIAS
No escuro, a sala parecia mais fria do que realmente era. Lembro ainda e aos pedaços do filme. Lembro do pobre asno cumprindo a sina de trabalhar e de, por uma noite, ser mais que um animal mágico, ser uma criatura coroada de flores. Lembro que, quando não havia mais quem dele cuidasse e o coroasse de rosas, seus esturros eram um choro aos soluços. Despedaçava-se o mundo do pobre animal... Estávamos em uma pista de alta velocidade e (talvez fosse o domingo) pude reviver aquelas horas frias na sala de cinema, em um dia de inverno.
Toquei de leve a tua mão e me vi, diante da tela, baixando o rosto devagar para que não me vissem chorar. Arroio claro. Arroio escuro: sou das lágrimas e me envergonho. O asno morreu, abatido a tiros, numa noite sem estrelas.
OS OUTROS DIAS
Acordei.
Simples como estarmos lado a lado, veio a certeza da minha finitude.
Vou morrer, pensei.
Vou morrer.
E voltei a dormir.
por Gabis às 9:49 AM | comentários (1)
julho 1, 2006
Ouvindo a vida besta
Já ficou em casa, diante do aparelho de som e com uma pilha de cd's para ouvir?
Pois ontem fiquei exatamente assim e foi tão bom! Ouvi muitas, muitas músicas que não ouvia fazia tempo e me veio uma saudade amiga, uma melancolia de tempos que não ouso lembrar direito. Mas lembrei de meu pai cantando uns xotes e baiões de Luiz Gonzaga. Você já ouviu "Xandu"? É uma canção do velho Lula que conta a história de uma mulher que deixa um homem rico para ficar com um pobre (poderá isso desmentir a idéia de que mulheres gostam de dinheiro e bichas de homens?). Nunca ouvi uma reinterpretação de Xandu. Se ainda nutrisse alguma intenção de ser um cantor a sério, um cantor popular, de certo esse baião estaria no meu repertório...
E a pilha de cd's não acabava. Vi que havia comprado o disco novo de Ceumar e nem sequer havia ouvido direito. A-do-rei "De parede e meia", uma canção de Cléber Albuquerque, músico lá de Santo André. E a interpretação de Ceumar é tão doce, irônica e divertida que não resisti: se fico de mau humor, ouço "De parede e meia" e começo a ficar mais relax, sabe? E existe "Yo soy la locura", Hespérion XXi, Jordi Savall!
por Gabis às 11:28 AM | comentários (798)
Vida Besta
Não é sempre que temos algo de realmente interessante a dizer, não é? Não raras vezes venho aqui e começo a escrever uma coisa ou outra, mas tudo parece por demais desinteressante e, nesse ponto, acabo por desisitir de escrever, de me contar. Como não tenho interesse em me tornar uma star dos blogs (o que não significa que não queira ser lido), escrever se tornou um exercício mais descompromissado, mas não menos exigente. O fato é que ter de externar opinião sobre todas as coisas é muito chato e, normalmente, as pessoas que tem opinião sobre tudo tendem à chatice. Uma coisa Caetano Veloso, percebem? É bom estranhar os acontecimentos, é bom a gente se perguntar o significado do que a vida está dizendo e saber ficar em silêncio para poder elaborar uma resposta. Lembrei daquela música: "meu amor fala muito, mas nunca fala demais". É possível que seja isso, há gente falando demais e dizendo pouca coisa, eu inclusive.
por Gabis às 11:17 AM | comentários (71)