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janeiro 7, 2006
Estranhamento
O ano começa e eu brincando de ser diferente, de ser outra pessoa. ontem vi, depois de 5 anos, um dos meus melhores amigos do final da adolescência. Conhecemo-nos em 1986, ele foi para a França, casado. Voltou três anos depois ao Brasil, ficou por aqui 1 ano, voltou para a França, depois foi para outro país da Europa, casou de novo... E eu aqui, estudando, fazendo poesia, me preocupando com a vidinha provinciana e quando vi, já é 2006!
Eu descobri, entre assustado e aliviado, que eu e ele somos criaturas diversas e tentei transformar isso em uma indiferença, mas não deu porque sou pessoa que sente tudo muito fortemente. Se discordo, se estou aborrecido, se penso de um modo diferente meu rosto externa isso logo, logo. Aí fiquei pensando: como lidar com alguém que esqueceu a língua portuguesa? Como lidar com alguém que é considerado brilhante na área em que atua, mas não consegue resolver os desafetos familiares? Como lidar com alguém que tem cara de índio, mas escolheu ser europeu? Como lidar com alguém que diz "vou a uma empresa para trabalhar, não para fazer amigos. Gosto de pessoas, mas não preciso fazer amigos"? Sabe o que fiz? Eu rezei porque era a única coisa que eu podia fazer e compreendi que, enquanto ele falava, estava diante de mim uma pessoa que tentava se entender também, era uma pessoa com um discurso que misturava português, francês, inglês e sei lá eu quantas outras línguas, mas era uma pessoa voltando pra casa e encontrando dentro dela os monstros que deixou trancados faz 20 anos. Eu sei que simplesmente não se brinca com os afetos porque eles voltam e cobram preços altos. A gente pode mudar de pele, pode se tornar refinado, doutor em alguma coisa, mas as forças primárias que nos moldaram permanecerão as mesmas caso nós façamos de conta que elas não existem. Agora, a pergunta difícil: e eu ?
por Gabis às 9:27 AM | comentários (102)