abril 9, 2008
Escrever
A gente fica muito tempo sem escrever e dá nisso: uma vida inteira passa diante dos seus olhos e você nem está à beira da morte. No caso de alguns pode ser uma pena...
Você já viveu a experiência de sentir que quase perdeu alguém importante? Estou vivendo essa experiência de quase perda. Quando morei longe de Manaus, perdi a experiência de ver meus sobrinhos crescer, de ver momentos importantes no envelhecimento de minha mãe (sim, porque envelhecer é tão importante quanto viver bem a juventude), perdi oportunidades de ganhar mais dinheiro e ter casa própria, essas bobagens que não contam. Mas não sabia que a gente podia perder o contato com um irmão ou uma irmã. O fato de não reconhecermos alguém com quem crescemos é cortante, para dizer o mínimo.Eu poderia escrever masi sobre isso, mas é melhor não.
Tenho lido muitos livros e falado com pessoas, parafraseando a canção de que não gosto. Tenho feito outras tantas coisas que não cabem dizer aqui. Mas fiz uma coisinha, já há algum tempo que foi bem legal. Lembram desse texto de Clarice Lispector?
Quando não estou escrevendo, eu simplesmente não sei como se escreve. E se não soasse infantil e falsa a pergunta das mais sinceras, eu escolheria um amigo escritor e lhe perguntaria: como é que se escreve?
Por que, realmente, como se escreve? Que é que se diz? E como dizer? E como é que se começa? E que é que se faz com o papel em branco nos defrontando tranqüilo?
Sei que a resposta, por mais que intrigue, é a única: escrevendo. Sou a pessoa que mais se surpreende de escrever. E ainda não me habituei a que me chamem de escritora. Porque, fora das horas em que escrevo, não sei absolutamente escrever. Será que escrever não é um ofício? Não há aprendizagem então? O que é? S ó me considerarei escritora no dia em que eu disser: sei como se escreve.
Pois é. Enviei esse texto para várias pessoas, algumas (na verdade pouquíssimas) responderam. Algumas das respostas estão logo abaixo:
I
A pergunta de Clarice é claro que é retórica (mas não é por hipocrisia). Ela sabe como se escreve, mas quer lançar este desafio aos outros escritores e pretendentes de escritores , como nós. Ela quer mostrar pra nós que o escritor TEM QUE SER HUMILDE e deve manifestar essa humildade. Escrever provoca as mais diversas sensações nos poetas. Gosto muitíssimo da pergunta de Hilke ao jovem poeta: ESCREVER PRA TI É VITAL?
Vc vive sem isso? Eis a questão. Nós dois sabemos que somos poetas porque não sabemos viver sem FAZER POESIA , somos obrigados a aceitar nosso destino, com humildade e grandeza.
Quanto a mim, a minha história pessoal, agora ela está mais do que nunca vinculada à essa atividade vital de escrever. Não posso ter a regularidade de muitos escritores , dado o meu problema de coluna, mas escrevo com toda a força que existe dentro de mim. (Luciana Martins)
II
Eita... Pergunta difícil, hein? :) Mesmo não sendo escritora, respondo sim!
Bem, eu acho que tenho 2 jeitos de escrever: no papel (ou na tela) e na minha cabeça. Eu escrevo muita coisa na cabeça que nunca vai pro papel. Algumas coisas vão, mas sinto que quando as mãos entram no circuito elas têm vida própria e a escrita é alterada pelo elemento "mãos". Como se fossem elas que escrevessem, ou melhor: a cabeça dita e elas escrevem, mas não sem influência. Como um telefone sem fio :)
É bem clara a diferença pra mim do pensar simplesmente e do escrever. Há idéias e coisas que aparecem mentalmente que já vêm prontas pra compartilhar, e acho que é essa a diferença: tudo o que eu preciso dividir ou dialogar, é o que se escreve (e nem sempre vai pro papel, às vezes fica só escrito no pensamento); o que é só meu fica em outro compartimento.
Várias vezes por dia eu separo mentalmente as "coisas de escrever" e "pensamentos outros"!
Então, meu querido, sou bem diferente da Clarice... eu escrevo o tempo todo na minha cabecinha. Às vezes vai pro papel/tela, às vezes não :)
Beijo, te amo querido!
(Zel)
III
Gabi, meu lindo, como ir além da própria Clarice? Imagine se eu conseguiria... A pulsão pelo escrever talvez seja
um dos maiores mistérios da natureza humana... E, por ser misterioso, é ainda mais maravilhoso
(Cris Ramalho)
Respostas! Respostas!
por Gabis às 11:44 PM | comentários (1)
janeiro 20, 2008
COMO É QUE SE ESCREVE?
O que vem a seguir é de Clarice Lispector. Foi escrito em 1968, para a coluna de crônicas que ela mantinha no JB:
Quando não estou escrevendo, eu simplesmente não sei como se escreve. E se não soasse infantil e falsa a pergunta das mais sinceras, eu escolheria um amigo escritor e lhe perguntaria: como é que se escreve?
Por que, realmente, como se escreve? Que é que se diz? E como dizer? E como é que se começa? E que é que se faz com o papel em branco nos defrontando tranqüilo?
Sei que a resposta, por mais que intrigue, é a única: escrevendo. Sou a pessoa que mais se surpreende de escrever. E ainda não me habituei a que me chamem de escritora. Porque, fora das horas em que escrevo, não sei absolutamente escrever. Será que escrever não é um ofício? Não há aprendizagem então? O que é? Só me considerarei escritora no dia em que eu disser: sei como se escreve.
Amigos queridos, respondam-me a pergunta que não quer calar.
por Gabis às 9:11 PM | comentários (3)
dezembro 19, 2007
A arte do silêncio
Eu vinha sentindo, faz algum tempo, a necessidade de voltar ao Páginas Íntimas para contar uma série de histórias recentemente acontecidas em Manaus e comigo, mas não o fiz. Havia uma outra série de coisas que me impedia: as viagens de trabalho, a angústia diante do dia a dia, a necessidade de resolver o cotidiano antes de me preocupar com a escrita, a dúvida diante da necessidade de vir aqui e me expor e, finalmente, a necessidade de ficar em silêncio.
Em que pese o fato de que o título desse post apresente o silêncio como uma arte, não quero dizer que eu seja um artista do silêncio ou que o meu silêncio seja uma forma de superioridade. Quero dizer que há momentos em que precisamos reconhecer (pelo menos algumas pessoas entre as milhões do mundo) que é preciso ficar em silêncio para ver o que acontece com a gente. Foi o Gui, por ora em silêncio, que voltou a me chamar a atenção para essa questão da qual já tratei aqui.
O silêncio vem de várias formas. O que dizer para alguém que perdeu um filho, um amor, um amigo? Que dizer para alguém que se descobriu nas mãos da indesejada das gentes? Que dizer para alguém que sofre pelo imponderável, pelo irreparável? Entre as obviedades e os lugares comuns, prefiro o silêncio e a mão amiga.
Certa vez um homem me disse que o silêncio é uma forma de resposta e isto me assombrou tremendamente. Mas sei que há casos em que o silêncio não é só resposta, é uma espécie de grito. Já perceberam como existem silêncios que acalmam e outros que berram? Há silêncios insuportáveis como o de antes da resposta sobre uma promoção no trabalho, o de antes que alguém diga “você quer ficar comigo?”, o que antecede o instante em que você percebe o fim. Fim de quê? De tudo quanto você ame, mas não necessariamente ao mesmo tempo.
Há o silêncio que consola. O silêncio de amigos que não precisam dizer nada porque a presença basta. O silêncio das manhãs de domingo quando ninguém ainda acordou. O silêncio dos gatos deitados ao seu lado, “o silêncio das línguas cansadas”.
Lembro que quando assistimos “O labirinto do fauno” e “Piaf”, saímos do cinema em silêncio. Não havia aquele nervosismo de após assistir “Tropa de elite” ou “Qualquer coisa Bourne”, e olha que gostei dos “qualquer coisa Bourne”.
Há silêncio na música também. Em qualquer música. No mais ininterrupto exemplar de heavy metal há silêncio, há um espaço para as notas respirarem. A música de Satie sabe fazer silêncio e a de Bach também. E, é claro, há uma grande tradição de músicos populares que falam sobre o silêncio e sabem fazer silêncio:
Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco a dor no peito
Não diga nada sobre meus defeitos
E não me lembro mais quem me deixou assim
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor assim descontraído
Quem sabe de tudo não me fale
Quem não sabe de nada se cale
Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
(Paulinho da Viola)
Por ora, basta.
Amor sempre.
por Gabis às 8:22 AM | comentários (1)
setembro 24, 2007
SURPRESA!
Certa vez, conversando com Cláudia Letti, aliás, lindíssima com a cabeleira loira, eu disse que ficava espantado com o fato de ela falar de tantas coisas sem ser pessoal. Por incrível que pareça, clarice Lispector passou pela mesma angústia, mas ela se correspondeu com Rubem Braga... Eu tenho Clau e estou bem servido. O fato, no entanto é que não sei ser de outro jeito, pelo menos não aqui. Então lá vai: fazendo um exame de rotina, o médico constata (enquanto eu estava incomodado com a gelatina gelada sobre meu abdômen), passando o aparelho de ultrassonografia e olhando na tela do equipamento
- O senhor tem apenas um rim funcionando.
- Perdão?
- O senhor tem apenas um rim funcionando. Não se preocupe, está em ótimo estado. Como o da direita é atrofiado, aconselho a que o senhor não sofra acidentes de autmóvel, não exagere no álcool, tenha cuidado com o consumo de açúcar e tudo fica bem. Para confirmar o resultado, o senhor pode fazer um cintilografia ou um outro exame equivalente. Alguma coisa a declarar?
- Não, doutor. Obrigado.
- Volte sempre.
Saí, do consultório e comprei bacalhau, um espumante italiano, uma boa massa e festejei a vida. Ela está comigo e eu estou nela.
Bandeira viveu até que idade?
por Gabis às 9:23 PM | comentários (38)
agosto 1, 2007
NADA E A NOSSA CONDIÇÃO - O POST
I
Tive a sorte (ou estava surtado, não sei) de trabalhar Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa, com meus alunos do primeiro período de Letras. Papo vai, texto vem, eles leram junto comigo os contos inicial e final. Lemos página à página, fazendo paradas, fazendo perguntas, imaginando intenções. E houve um momento, durante a leitura de “As margens da alegria” que encontramos a declaração “Só no grão nulo de um minuto, o Menino recebia em si um miligrama de morte”. Essa belíssima construção é sobejamente conhecida, eu sei. Mas ela me pegou em algum lugar e fiquei desconfiado. Meus alunos também ficaram e só se acalmaram quando passamos do conceito de sacrifício para o de reversibilidade. Explico: existe, acredito, um princípio de reversibilidade na obra de GR. Há sacrifício, morte, perdas inomináveis, mas, em certo momento, toda dor se reverte em beleza, em uma forma de alegria. A idéia não é minha, é de Alfredo Bosi no livro Céu, inferno.
II
Chegou o fim de semana. Entre cuidar dos gatos, da casa, dos livros, do companheiro, da família e ter minhas coisas em segredo (isso é importantíssimo!), fiquei tomando minha xícara de café com leite e olhando o sol da manhã, lindo, depois de uma noite de chuva. Lembrei de haver comprado um disco de Elis Regina, Transversal do tempo, e resolvi ouvi-lo, eu, que quase nunca ouço Elis. Fui ouvindo, ouvindo e encontrei uma canção, muito famosa nos fins dos anos 70, chamada “Meio termo”, conhecem? A letra é de Cacaso e a música de Lourenço Baeta:
Ah, como eu tenho me enganado
Como tenho me matado
Por ter demais confiado
Nas evidências do amor
Como tenho andado certo
Como tenho andado errado
Por seu caminho inseguro
Por meu caminho deserto
Como tenho me encontrado
Como tenho descoberto
A sombra leve da morte
Passando sempre por perto
E o sentimento mais breve
Rola no ar e descreve
A eterna cicatriz
Mais uma vez
Mais de uma vez
Quase que fui feliz
A barra do amor
É que ele é meio ermo
A barra da morte
É que ela não tem meio-termo
Vejam só que ironia: Transversal do tempo é de 1978, portanto “Meio termo”, foi gravada no mesmo ano. Elis partiu em 1982 e Cacaso, em 1987. Continuei ouvindo o disco, ora o pensamento ia para Guimarães Rosa, ora para Elis e Cacaso. Eu estava feliz, juro. Estava bem demais. Havia sol, havia a poesia, havia a música, havia luz, era sábado, a vida existia para mim e para os outros. Foi aí que o telefone tocou. Rider, meu amigo desde o finzinho da adolescência, grande bailarino e coreógrafo, disse com voz pausada “gabriel-me-deixa-falar-a-berna-morreu-hoje-às-cinco-da-manhã”. Eu sabia que ela ia morrer, todos sabíamos, mas de algum modo a notícia era brutal. Tomei banho, me arrumei para vê-la pela última vez. Fiquei parado diante do caixão e vi que já não era a minha amiga, a artista plástica brilhante, uma das mais prolíficas da geração a que pertencia. Olhei fundamente o rosto encovado e branco e a única coisa que me vinha à cabeça era que aquele saco de ossos já não era ela, já não era Bernadete Mafra de Andrade. O Loro, ao meu lado, depois de um tempo disse “não dou conta de ficar mais aqui, não”. Entendi perfeitamente. Não consegui chorar direito até agora. Quando saímos do velório, olhei para o Loro e perguntei o que fazemos disso. Onde pomos a perda? Onde pomos a responsabilidade pela nossa ausência? Se alguém souber, que me diga.
III
Berna, venho assumir publicamente que sumi de você. Por covardia, por canalhice talvez. Venho dizer publicamente que agradeço a graça de te haver conhecido, agradeço termos lido o Eupalinos (belíssimo livro), agradeço o que você me deixou e não sei nomear. Agradeço e desejo poder dar a outros a alegria que recebi de ti.
por Gabis às 11:29 PM | comentários (51)
julho 24, 2007
O país experimental
Tento não ser "pessoal demais" quando escrevo aqui (estradas retas me cansam). Mas há momentos em que se deve dar nomes aos bois. Estou espantado com a quantidade de tranqueira pelas quais a gente tem passado.
1) Li, na Zel sobre as vaias contra a atleta estadunidense e pensei na atitude latina (em seu sentido stricto) de jogar o cristão aos leões. Vaiar é feio, é mal-educado, é expressão do sentimento de inferioridade que os outros nos causam por uma série de motivos. Não acompanho esportes porque tenho outros interesses, mas no quesito sentimento de inferioridade, o Brasil amarga algumas passagens quanto aos estadunidenses: basquete, vôlei, ginástica... Agora, o comentário da moça é de matar: passar por portuguesa dada a vergonha de ser brasileira... Faça-me o favor.
2) Ontem, uma amiga chegou em Manaus e fez um relato breve sobre os efeitos do apagão do sindacta 4. A aeronave em que ela vinha teve que retornar a Guarulhos! A Gol não garantiu o embarque de todos os passageiros e não se desculpou ou externou qualquer preocupação: a responsabilidade, segundo a companhia, é da INFRAERO, que diz não ser responsável por coisa alguma. E até quando a blindagem presidencial vai funcionar? Senti-me menos ofendido quando li isso aqui.
3) E o sindacta 4? A responsabilidade é da Manaus Energia? A responsabilidade é da Infraero? A resposnabilidade é da gerência? Se não entendeu, veja "O Iluminado". De quem é, afinal?
4) após o acidente da companhia Rico, no qual faleceu meu amigo e irmão Marcelo Guedes, após o acidente com o vôo da Gol, no qual perdemos alguns dos mais brilhantes pesquisadores que nos prestavam assessoria na FAPEAM compreendi uma coisa: caixas pretas não revelam absolutamente nada. Se revelassem, saberíamos o que aconteceu nos acidentes anteriores, teríamos uma resposta consistente que não existe para nenhum dos casos citados. E acreditem: não teremos uma resposta consistente e cabal para o que aconteceu em Congonhas.
5) Enquanto isso, na Inglaterra, chove a cântaros, na Itália há um incêndio de proporções inimagináveis e é bom não esquecer da África.
Com licença, vou ali chorar um pouco (de raiva e frustração) e outra hora, volto.
por Gabis às 10:57 AM | comentários (37)
julho 9, 2007
Elizabeth Coetzee
Mesmo quando estamos fora do mundinho, os ecos chegam onde quer que estejamos. A mídia fez e faz todo aquele escarcéu por causa da FLIP. Eu não vou à FLIP porque moro longe, porque é caro, porque não estou à vontade com o conceito de festa literária e porque gosto de escritores, eu os admiro, mas não os cultuo.
Como dizia, o eco do mundinho vem até nós em forma de uma pergunta: “parece que J. M. Coetzee vai à Flip, você já leu algum livro dele, não é?”. Quando me fazem perguntas assim, aparece, em primeiro lugar, aquele cara chato formado em letras se perguntando: qual a relação entre a oração principal e a subordinada? O fato de Coetzee vir para a FLIP é conclusivo de eu o haver lido? Pois é, não li. Mas não resisti e comprei o único romance dele que encontrei em Manaus, “Elizabeth Costello”.
Sei sobre o autor que é viajado, lido, culto, refinado, um tanto mal humorado e ganhador do Nobel de 2003. Sei também que a crítica especializada rende loas ao cidadão como se, acabado o mundo, só a obra de Coetzee devesse existir. Que fazer senão ler “Elizabeth Costello”? Iniciei a leitura e, na orelha, diz-se que Elizabeth Costello é um duplo de Coetzee e, como ele, uma escritora de idade avançada, gozando o prestígio colido ao longo dos anos de vida literária. Alguns temas vêm à tona no calor da hora: o desrespeito à vida animal (incluído aí o fato de serem devorados por nós), o extermínio de seres humanos nos campos de concentração nazistas, o conceito de mal... E tudo isso em forma de palestras proferidas pela autora ao mesmo tempo em que vai enfrentando problemas familiares e afetivos (será que se separam?). Até aí tudo bem, Coetzee está na ordem do dia e, por meio das declarações de suas personagens, faz verdadeiros confrontos de idéias como há tempos não os lia. Até que, numa curva inesperada, o leitor é posto a observar Elizabeth, aos quarenta anos, desnudando e oferecendo os seios para um velhinho à beira da morte. Para arrematar, ela brinda o moribundo com uma felação, aliás é bom lembrar que, no texto, as partes do velho são ditas como “mal lavadas”. Ainda tudo bem. Mas meu olhar que ainda se espanta com o que lê, ficou mirando aquela situação, explicada a partir de uma menção ao mundo grego, à arte grega em conflito com o espírito cristão, aos seios e sua capacidade de “exsudar” manifestação do belo e do pacto entre homens e mulheres. Fiquei incomodado, mas não como quando uma declaração, imagem ou idéia nos faz parar para pensá-la, vê-la e, por fim, compreendê-la. Foi o incômodo diante de alguma coisa ainda não completamente demonstrada, alguma coisa que quer nos enganar. Estou me sentindo enganado por Coetzee. Há engano quando um autor inventa um duplo feminino que, ainda jovem, põe-se a sugar o pênis morto de um octogenário, acreditando, tempos depois, que esse ato em si e pelo suor, é um ato humano de beleza. Sugere-se ainda que a felação e a oferta dos seios sejam parte de um pacto entre o feminino e o masculino. Sim, é provável que seja. Mas um homem não poderia fazê-lo igualmente? Mais: não seria o homem à beira da morte um outro duplo, melhor, uma sombra, esta, sim, portadora de uma atitude masculina? Ou seja, um homem querendo ser chupado, fantasiando a felação in extremis? Parece-me que o cultuado Coetzee é mais um macho bem pensante escrevendo. Nada contra os machos, eles são os inventores da escrita, mas a passagem acima descrita não seria mero exercício de estilo disfarçando uma masculinidade que de resto não carece de disfarces?
Gostaria de ver como ele resolveria a imagem de um homem chupando outro. Aí, talvez, ele chegasse aos gregos e ao suor.
por Gabis às 8:19 PM | comentários (22)
junho 18, 2007
Crônicas de um lugar comum: o fotógrafo, o porteiro e o cinegrafista
CASO 1
Um homem de bem vivia de tirar fotos para documentos, fotos de casamentos, batizados e que tais. Encontrou uma senhora de bem com duas filhas, a mais velha com dez e a mais nova com cinco anos. A mãe precisava de um dinheirinho e, por bagatelas, fazia vistas grossas para algumas visitas que o fotógrafo fazia às meninas. Um vizinho descobriu, chamou os demais vizinhos e invadiu a casa do fotógrafo, onde acharam-se fotos e vídeos das "brincadeiras" entre ele e as crianças. Quando o cenário estava pronto para o linchamento, a polícia chegou e acabou com a festa. O fotógrafo foi preso, a mãe está presa, os vizinhos se calaram e, das meninas, ninguém sabe.
CASO 2
Dona Fulana era a filha mais velha de uma família respeitável e pobre. Dedicou a vida a fazer carreira na secretaria de fazenda, ganhou dinheiro, cuidou dos sobrinhos, pagou-lhes a faculdade, ganhou mais dinheiro e resolveu fazer o bem, porque quem dá aos pobres empresta a Deus. Séria, severa, viu-se aos 70 anos sem filhos, com dinheiro, sem amor e alguns poucos amigos. O porteiro do prédio elegante em que d. fulana morava demonstrou atenção para com ela, passou a frequentar a casa dela, passou, com nojo (conforme os depoimentos) a dormir com ela. Pediu-lhe um carro, ela deu, pediu-lhe dinheiro, ela deu. Um dia o telefone tocou: "dona fulana, deixe esse rapaz, ele é perigoso, eu sou a namorada dele e sei o que digo". Ela desligou pensando o quanto as pessoas são invejosas. Foi encontrada morta, dentro de um carro, com o rosto deformado pela sequência de tiros com os quais foi alvejada. O porteiro está preso em uma carceragem para bandidos de alta periculosidade.
CASO 3
Um cinegrafista saiu com a ex-mulher, a irmã da ex, a filha de um ano e meio e a babá da criança para dar um passeio e jamais voltaram para casa. Os pais da ex começaram a receber telefonemas de seqüestradores. Os bandidos queriam R$ 300,00. Os corpos das três mulheres e da criança foram encontrados no quintal de uma vila de casas da periferia. Sabe-se que uma das vítimas, a ex, articulou com o assasino um sequestro fake para extorquir dinheiro do próprio pai. As coisas deram errado quando a babá descobriu e ameaçou ir à polícia. Suspeita-se que o assassino seja o cinegrafista e que a mãe das vítimas seja uma das
cúmplices do golpe frustrado.
E tudo isso aqui em Manaus.
Para entender, é melhor ler "A violência e o Sagrado", de René Girard.
por Gabis às 9:20 PM | comentários (18)
junho 16, 2007
A vida como ela é
Uma das coisas mais assustadoras de viver é o inesperado. Acho que tem gente que vê o mundo com óculos de sol, sabe? Gente assim não vive nem aceita o inesperado, o caos, as coisas que imaginávamos arrumadinhas no lugar delas e que, súbito, pegam a gente na curva.
CASO 1:
O LÔRO: Gá, sabia que sua irmã tá viajando?
EU: Humrrum, a mãe já me contou que ela faria uma viagenzinha de trabalho.
O LÔRO:Pois é, ela vai ficar um tempo em Paris.
EU: (...)
O LÔRO: Gá?
EU: sabe que eu tinha esquecido?
Tudo mentira, eu fiquei foi com inveja. Imagina um cara como eu, preparado para ir a Paris desde a mais tenra idade, falava francês bonitinho e tals e é minha irmã do meio que vai? Aí, depois da inveja, veio um orgulho, um amor tão grande.
CASO 2 (ao telefone):
PAT: Amigo, a vida tá uma loucura: meu pai está doente, seriamente doente.
EU:Que péssimo, Pá. E você?
PAT: Tentando ficar mais calma... eu acho que não tô muito legal também.
EU: Enxaqueca é de lascar, né?
PAT: É, sim. Mas a possibilidade de ter desenvolvido um câncer é pior.
EU (de novo): (...)
PAT: Gabriel?
EU: Tô aqui. Tô espantado contigo: podem passar com um trator por cima que tu estás rindo.
PAT: Nem tanto. Tô apreensiva. Não tenho medo da morte, de desaparecer da vida. Tenho preocupação com os meus filhos, quem vai cuidar deles?
EU: Ok, mas pára de falar como se fosse morrer, como se já tivesse câncer.
PAT: Só falta a resposta dos exames.
EU: Escuta, não me parece, pelo teu jeito, que seja alguma coisa pesada. Você sente dor?
PAT: Não, mas o médico disse que era melhor que eu sentisse...
CASO 3
LUÍZA (3 anos): Tio Biel, eu tenho uma coisa pra te dar.
EU: É amor? Que é?
LUÍZA (3 anos): Isso aqui, ó.
O beijo durou um tempão, fiquei com o rosto lambuzado de um batom rosa que ela resolveu usar.
Os gregos acreditavam na Moira, o destino inelutável dos homens. Eu acredito no imprevisível. E ele tanto é doce quanto assustador.
por Gabis às 12:06 PM | comentários (51)
novembro 23, 2006
OUTRA CASA NOVA
I
É isso mesmo. Mais uma vez, eu e Ed mudamos. É um apezinho que lembra o que tive na Vila Madá embora os arredores não lembrem a Vila Madá (mas o mundo é desigual e um pedacinho de tudo, não é?). Estamos felizes e o Babal (Aderbal, uma criatura felina) escondido debaixo dos lençóis.
II
A Muxu e a Sinhá, se espreguiçam e ficam curtindo a brisa na varanda.
III
Sabe o que está acontecendo, de verdade? Suspeito que fico cotando minha vida cotidiana pra não me enfrentar aqui e agora. Se quer saber o que digo, ou sobre o que falo, ouça a canção "Você e Você", do cd "O sorriso do gato de Alice", de Gal Costa.
IV
Estou cansado, um pouco triste e queria dormir dias a fio, acordar com fome e entrar no mar.
por Gabis às 3:09 PM | comentários (3)
